Artigo · Martinus
O lado psíquico da oração
Por Martinus
1. Tudo o que ocorre é o ser ou a expressão de Deus
A vida torna-se, por fim, para o ser humano perfeito ou realizado, um diálogo permanente com a Divindade. Toda relação com o nosso próximo não é apenas uma relação entre esse próximo e nós mesmos, mas, em sua análise principal, é uma relação entre a Divindade e nós.
Mas o ser humano terreno comum não conhece a vida dessa maneira. Ele acredita que a Divindade é uma pessoa ou figura que está sentada no céu e é um ser separado, enquanto o seu próximo ou os seus semelhantes são algo totalmente diferente, e a natureza, a Terra, as estrelas ou o universo são um terceiro elemento.
Ele não compreende que, na realidade, só existem ele próprio e a Divindade. Ele não entende de modo algum que tudo o que ocorre é o ser da Divindade, é a manifestação da Divindade. Se não fosse assim, a Divindade jamais poderia tornar-se uma experiência. O filho pródigo jamais encontraria novamente o seu pai, e sequer chegaria a perceber a experiência da vida.
2. Ao desfrutar do fruto da árvore do conhecimento, o ser perde a consciência de Deus
Quando o ser vivo eternamente existente perde, assim, a compreensão ou a consciência da Divindade — e, com isso, também de sua própria elevada identidade como filho de Deus — isso é apenas a expressão da morte que ele deveria sofrer por causa do desfrute da árvore do conhecimento.
Mas, depois que o ser humano terreno, através da reencarnação, percorreu essa existência morta, na qual acredita ser uno com a matéria, uno com o tempo e o espaço, uno com medida e peso, uno com começo e fim, e na qual acredita que deve morrer ou dissolver-se no nada, ele deve ressurgir novamente para a vida real, para o conhecimento de sua existência eterna em companhia da Divindade.
E quando essa ressurreição pode ocorrer, isso se deve ao fato de que o ser jamais pode afastar-se completamente da Divindade.
3. O grito instintivo a Deus por ajuda
No meio da existência morta e materialista, ainda assim arde uma pequena chama da vida eterna. Essa pequena chama está, normalmente, oculta no ser fortemente materialista e sem amor. Ele nega obstinadamente a existência dessa chama — até que se encontre em alguma situação de perigo de vida iminente, da qual não pode escapar com dinheiro, posição, poder ou fuga.
Numa situação assim, a pequena chama interior se eleva tanto que o ser instintivamente clama aos céus, clama à Providência desconhecida ou ao Pai negado por ajuda.
Como esse clamor começa como o grito de angústia do animal e continua sendo a última esperança de todo ser em suas situações mais desesperadoras, infelizes ou perigosas, torna-se evidente que esse clamor não é uma invenção humana terrena, mas sim uma vibração da identidade cósmica inata e inconsciente do ser.
Quando o mais frio e materialista “livre-pensador” clama à Divindade, quando todas as outras formas de ajuda estão excluídas, isso mostra que entre ele e a Divindade existe uma ligação psíquica que não pode ser rompida.
Assim, sua concepção de que não existe nenhum Deus ou Providência não consegue sustentar-se em situações perigosas. Torna-se fácil ver que o ateísmo é apenas algo ilusório, sustentado enquanto o ser se acredita livre de todo perigo, protegido por suas capacidades materiais, seu poder e sua posição.
Mas essa negação não pode tornar-se vida, esperança ou luz quando chega a escuridão. E tudo o que pode ser vida quando a morte chega pode sobreviver à morte. Assim, a oração — a ligação do ser com a Divindade — pode sobreviver a tudo.
Essa ligação com a Divindade passa por uma grande transformação à medida que o ser se desenvolve. Primeiro é um grito de morte, depois torna-se uma súplica à Divindade — inicialmente por perdão dos pecados, mais tarde, uma correspondência ou um diálogo com a Divindade. O princípio da oração é, portanto, a chama da vida eterna na passagem do ser pelo reino da morte.
4. A vida é um diálogo entre a Divindade e o filho de Deus
Mas, para compreender a oração na época em que ela se transforma em um diálogo com a Divindade, é preciso aprender a compreender como Deus se manifesta. A Divindade não pode manifestar-se sem órgãos. Ao aprender a conhecer os órgãos de Deus, aprende-se a conhecer as funções corporais e de consciência de Deus.
Com esse conhecimento, a vida torna-se imediatamente diferente, pois o universo então se revela como um organismo vivo da Divindade. Nesse organismo, todos os órgãos estão destinados a expressar a vontade divina.
Mas diante de quem a Divindade expressa essa vontade? Como, além da Divindade, só existe o filho de Deus, a vida torna-se inevitavelmente a revelação da Divindade para esse filho.
E como, diante do filho de Deus — em virtude de tudo serem órgãos de Deus: seres humanos, animais, a natureza, o céu, as estrelas etc. — também só existe a Divindade, a vida torna-se um diálogo entre a Divindade e o filho de Deus.