Artigo · Martinus
A influência da alimentação desacertada na formação do destino de quem a ingere
Por Martinus
O inferno não é um estabelecimento penal sob a forma de um forno ardente situado em algum lugar indeterminado, no qual os seres vivos queimam eternamente. Ele se manifesta como uma realidade muito conhecida da vida cotidiana, pois toda forma de doença, dor e aflição é, em si mesma, um inferno.
Não existe nenhum outro inferno. Como toda doença, dor e aflição — isto é, todos os tipos de penúria — são expressão de atos desencadeados à margem das leis eternas pelas quais o universo continua existindo, o inferno equivale, por isso, ao conjunto de todos os desequilíbrios da existência.
Como o ser humano terreno ainda não é um ser humano perfeito, mas, ao contrário, ignora em muitos aspectos as leis eternas, vive em constante infração dessas leis. Como toda infração só pode existir por meio de uma força que emana do indivíduo, e como toda força ou energia — segundo o Livets Bog (“O Livro da Vida”) — não pode seguir uma linha reta, mas percorre uma trajetória circular e retorna necessariamente à sua origem, essa energia desencadeada em relação a cada infração volta novamente à sua origem e causa o desequilíbrio correspondente.
Essa origem torna-se, portanto, objeto ou vítima do mesmo destino que, por sua vez, foi desencadeado contra o seu ambiente ou contra outros seres.
Como toda matança e todo consumo de carne e sangue não acontecem sem significar morte e pânico antinaturais para os seres cujo organismo deve ser sacrificado, aquele que come carne e sangue não pode deixar de entrar, mais cedo ou mais tarde, em contato com os efeitos de sua maior ou menor cumplicidade nesse destino sombrio causado aos seres mencionados.
Em certas ocasiões, os efeitos das diferentes infrações precisam percorrer, desde o momento em que são desencadeados até o momento em que retornam à sua origem, um caminho imensamente longo, seguindo uma trajetória circular no espaço. Com frequência, esses efeitos estão a caminho durante centenas de anos, apesar de se moverem à velocidade da luz e das ondas radiofônicas.
Isso significa que as pessoas que hoje participam do que ocorre nos matadouros, na pesca ou que matam animais de algum outro modo, em muitas ocasiões não entram em contato com os efeitos principais na vida atual. Isso ocorre, porém, em vidas posteriores.
É importante lembrar que todos os seres vivos são realidades eternas, ainda que vivam em organismos ou corpos que se sucedem. Isso se deve ao fato de que tais organismos são formados por matéria e, por isso, como todas as outras realidades materiais — máquinas e utensílios, por exemplo — devem renovar-se constantemente, pois pouco a pouco envelhecem e se desgastam.
Quando os efeitos das infrações cometidas pelo indivíduo retornam a ele, entrelaçam-se com sua radiação e com o estado em que se encontra naquele momento, causando-lhe dor e sofrimento. Desse modo, esses efeitos se transformam, para o ser humano terreno comum, na causa invisível ou oculta de sua ligação com a guerra, a mutilação, o homicídio, o assassinato etc.
De modo semelhante, a maior parte dos seres humanos terrenos é objeto ou vítima, na presente vida física, dos efeitos principais de seu consumo de sangue e carne em existências anteriores. Ao mesmo tempo, naturalmente, também é objeto dos efeitos das demais ações ou formas de manifestação de vidas anteriores.
Podemos dizer, então, que nenhum ser pode escapar dos efeitos de seus atos imperfeitos. Mas isso é, na verdade, algo divino. Pois, se acontecesse o contrário, toda a evolução se paralisaria. E a morte, em vez da vida, dominaria o universo.
É evidente que não posso entrar em detalhes no que se refere à criação do destino em si e que, para isso, devo remeter o leitor ao Livets Bog (“O Livro da Vida”). Entretanto, gostaria de mencionar que o que foi exposto acima não trata, absolutamente, de especulações ou teorias, mas de fatos reais.
As irradiações criadoras de destino podem ser acompanhadas em sua trajetória circular através do espaço, por meio dos sentidos ocultos superiores, e ali podem ser observadas com a mesma facilidade com que as realidades físicas podem ser observadas por meio dos sentidos físicos.
Além dos efeitos primários ocasionados pelo consumo de carne e sangue, existem também os efeitos secundários. A onda de energia que os impulsiona precisa percorrer apenas caminhos muito curtos. Esses efeitos secundários são, por isso, desencadeados imediatamente, isto é, começam ao mesmo tempo que a digestão dos produtos animais mencionados.
Esses efeitos são tão pequenos que nem chegam a ser percebidos quando os produtos pertencem ao grupo dos chamados “produtos frescos”. No entanto, o consumo contínuo desses produtos acaba produzindo efeitos destrutivos sobre o organismo. Esses efeitos são especialmente perigosos porque se apresentam de maneira oculta e só se tornam visíveis quando alcançam sua culminação sob a forma de doenças orgânicas.
Esses efeitos são produzidos porque a diferença existente entre a vibração própria dos “produtos cadavéricos” e a vibração característica do organismo vivo no qual foram absorvidos como alimento é grande demais. Quando essa diferença é mantida de modo permanente, como acontece quando o consumo de carne e sangue é constante, a vibração própria dos produtos cadavéricos acaba dominando a vibração própria do organismo.
O indivíduo em questão perde, de maneira proporcional, o domínio das funções normais de seu organismo. Os organismos nos quais a vibração própria dos produtos cadavéricos se torna a mais forte carecem de defesa contra a invasão de corpos estranhos — bacilos e bactérias —, pois as vibrações destes estão em harmonia com a vibração própria dos produtos cadavéricos.
Desse modo, esses corpos estranhos não encontram resistência quando tomam posse do organismo ou de algumas de suas partes. E o organismo apresenta, nos pontos em que foi dominado dessa maneira, uma doença orgânica com maior ou menor perigo de morte.
Tal desgaste das vibrações normais do organismo, provocado em parte pelo consumo de carne e sangue, em parte pelo uso de entorpecentes e por uma alimentação e cuidados inadequados, é a causa fundamental de qualquer tipo de doença, seja tuberculose, câncer, abscessos, reumatismo, cálculos biliares, cálculos renais, obesidade, insuficiência cardíaca, pressão arterial anormal, anemia, problemas de digestão ou de evacuação.
O uso de qualquer tipo de estimulante de natureza narcótica e o consumo de carne e sangue provocam a morte prematura. Como um ser que ativa sua própria morte é um “suicida”, toda pessoa que ainda não alcançou contato com a harmonia ou com a fonte natural de nutrição participa, por meio do consumo de carne e sangue, não somente do assassinato dos seres que a rodeiam, mas também, ainda que lentamente, de seu próprio suicídio.
Essa pessoa é simultaneamente “assassina” e “suicida”; é a expressão máxima da infração do quinto mandamento, ou da destruição daquilo que é o fundamento eterno de toda vida que alcançou sua perfeição: “Não matarás”.
Um indivíduo assim ainda é um protótipo ou representante do paganismo e deve, em grau correspondente, estar submetido às leis e consequências desse paganismo. Deve estar sobrecarregado de doenças e sofrimentos, independentemente de ser “sacerdote”, “bispo” ou “papa”, ou de se qualificar como “cristão”, “santo”, “convertido”, “bem-aventurado”, “ortodoxo” e coisas semelhantes.
Um indivíduo só é preenchido pelo “Espírito Santo”, isto é, alcança a forma fundamental do “grande nascimento” e a existência iluminada como “homem divino” que decorre desse nascimento, quando já não deseja a carne e o sangue de outros seres, quando já não é assassino nem suicida.
Durante o período que precede sua iluminação, esse indivíduo deve, portanto, carecer proporcionalmente de “consciência cósmica”, isto é, da autêntica faculdade de “ver Deus”.