Artigo · Martinus
Os sentidos de nutrição do homem terreno estão transtornados
Por Martinus
A questão da alimentação ideal faz parte dos grandes problemas atuais. A crescente evolução dos seres humanos, desde um estado rude, primitivo e animal até uma forma mais perfeita ou refinada de existência, é há muito tempo um fato consumado para o pesquisador avançado da ciência espiritual.
Do mesmo modo, é também um fato consumado para esse mesmo pesquisador que, quanto mais refinado for um organismo, mais refinados devem ser os materiais ou a alimentação que o sustentam. Enquanto o ser humano primitivo pode, sem inibições, comer alimentos retirados do lixo ou saborear produtos de mau cheiro que foram descartados, o ser humano civilizado e refinado só pode ingerir os chamados “produtos frescos”, que de preferência não tenham sido “tocados por mãos humanas”, mas elaborados sob os mais refinados processos de higiene.
É importante, entretanto, enfatizar que a evolução do sentido de nutrição desse último — que, neste caso, se refere especialmente aos seus órgãos do paladar — está muito longe de acompanhar o desenvolvimento do restante de sua evolução.
Na verdade, o sentido de nutrição tem como tarefa provocar especialmente fome e sede naturais. Por fome e sede naturais entende-se o desejo saudável por substâncias específicas que o organismo precisa absorver e assimilar para a completa manutenção de sua saúde.
Um sem-fim de enfermidades orgânicas e doenças graves que atacam os seres humanos civilizados são provas de que seus sentidos de nutrição não criam fome e sede naturais. Pelo contrário, fomentam o desejo por alimentos e estimulantes não naturais.
Do ponto de vista cósmico, apenas uma porcentagem reduzida dos seres humanos civilizados está absolutamente sã. Mas, em relação a isso, também devem ser levadas em conta outras circunstâncias, tais como o clima, o exercício físico, o sono, o ar fresco, a luz, a higiene e o vestuário.
Além dessas realidades, o apetite deve, naturalmente, ser sadio. Caso contrário, é inútil que os alimentos consumidos pelo indivíduo sejam saudáveis. Por isso, é inútil que uma pessoa consuma alimentos sadios se vive permanentemente em um ambiente insalubre ou se usa roupas impróprias ao clima em que vive.
Do mesmo modo, é inútil que viva em um ambiente de ar puro, de clima saudável, usando roupas apropriadas etc., se introduz permanentemente em seu organismo produtos antinaturais.
Todo organismo é dotado de órgãos que desenvolvem fome e sede naturais, isto é, que fomentam o desejo normal por essa alimentação absolutamente genuína, ou que procuram satisfazer as condições especiais nas quais se baseia sua existência totalmente sã.
Nos animais, em geral, esses órgãos — ou essa consciência da alimentação — ainda se encontram em sua forma autêntica. Isso significa que esses órgãos os protegem, quase totalmente, contra erros em seu modo de viver ou, em grau equivalente, fazem com que só possam perceber como agradáveis os tipos de prazer e os modos de vida absolutamente normais para a fase ou etapa de evolução em que se encontram.
No caso dos seres aos quais normalmente chamamos de “homens”, a situação é muito diferente. Segundo o Livets Bog (“O Livro da Vida”), esses “homens” ainda não chegaram à culminação de sua evolução. Por isso, até certo ponto, ainda pertencem ao reino animal.
Os sentidos de nutrição desses seres estão totalmente transtornados, degenerados e são pouco confiáveis. Isso significa que esses seres podem, às vezes, experimentar uma fome, e inclusive uma gula, muito forte por substâncias mais ou menos antinaturais. Esse desejo tem, em certas ocasiões, uma força tal que faz com que essas substâncias se apresentem frequentemente como alimentos e bebidas cotidianos.
Substâncias antinaturais são aquelas que, por um lado, carecem de valor alimentício e, por outro, são indigestas para o organismo humano. São substâncias cujo aproveitamento nutricional exige que o organismo, em seu processo de assimilação, perca uma quantidade de forças grande demais.
Além disso, essas substâncias manifestam, em algumas ocasiões, um vigor tal que fazem o organismo reagir de maneira muito forte, provocando um desequilíbrio em sua base. Por isso, essas substâncias são puro veneno para o corpo.
É lógico, então, que, enquanto os sentidos de nutrição dos seres humanos terrenos — o paladar — continuem instáveis, e inclusive possam chegar a exigir um consumo diário ou permanente dessas substâncias venenosas, seu organismo desenvolva, em grau correspondente, uma condição doentia, anormal e miserável.
Quando o indivíduo não tem nem o instinto nem a inteligência suficientes para escolher a alimentação ideal
Os seres humanos terrenos vivenciaram, através das religiões, da ciência e do saber, unidos aos outros acontecimentos dos últimos séculos, um forte e crescente processo de evolução. Isso originou, especialmente, um marcante desenvolvimento da inteligência dos indivíduos, ampliou o horizonte de seus sentidos e lhes deu poder sobre forças e realidades cuja existência não suspeitavam.
Como esse poder equivale a um incremento daquilo que se qualifica como “livre-arbítrio”, ou capacidade de agir por vontade própria, esse “livre-arbítrio” do ser humano terreno alcançou um nível consideravelmente superior à conhecida forma animal e primitiva do “livre-arbítrio”.
Enquanto essa última forma é dirigida, em sua maior parte, por disposições de tipo instintivo, a primeira passou a ser dirigida, em grande parte, por disposições baseadas na inteligência.
Desse modo, o ser humano terreno elevou-se, até certo ponto, acima do reino animal comum, conquistando novos e amplos campos espirituais e psíquicos. Mas, no mesmo grau em que penetrou em novas áreas espirituais e passou a usar a inteligência em vez do instinto, este último se degenerou.
Existe uma lei natural e inquebrantável que consiste no fato de que as partes de um organismo que não são usadas — como, por exemplo, os órgãos, os membros, os sentidos etc. — finalmente se tornam inúteis, degeneram-se e, por último, após sucessivas encarnações, decompõem-se e desaparecem.
Por conseguinte, essas partes só podem conservar-se por meio do uso. Dado que o importante e desenvolvido instinto dos animais degenerou-se nos seres humanos, e esse instinto era a base da faculdade de sentir fome e sede absolutamente normais, a faculdade do ser humano terreno de sentir dessa maneira também se degenerou de modo equivalente.
Se o organismo do ser humano terreno não tivesse se refinado ao mesmo tempo em que sua evolução o encaminhava para o abandono do reino animal, e se tivesse continuado com a mesma robustez para ingerir a habitual e grosseira alimentação animal, então sua consciência habitual em relação a essa alimentação o teria protegido, e não teria ocorrido nenhuma mudança em seu tipo de vida.
Mas o organismo refinou-se, e as substâncias necessárias para o seu sustento devem ter um grau proporcional de refinamento. Além disso, o ser humano terreno, em sua evolução, entrou em áreas nas quais seu organismo já não suporta a velha alimentação animal, mas exige produtos novos e refinados, enquanto seu instinto se encontra em um estado de degeneração que já não pode garantir-lhe nem o desejo nem a escolha da alimentação correta, como acontecia anteriormente.
Por causa disso, o indivíduo deve encontrar, por meio de sua inteligência, os alimentos que podem ser considerados adequados ao estado evolutivo atual de seu organismo. Mas, como em um organismo nada pode nascer em estado adulto, mas apenas pode tornar-se utilizável após uma evolução gradual, a inteligência tampouco pode nascer em estado adulto; ela também deve desenvolver-se.
Como a inteligência, por sua vez, só pode evoluir por meio de experiências, o ser humano terreno deve, nas zonas em que já ultrapassou o velho instinto animal, buscar as realidades autênticas através de suas experiências.
Mas a experiência surge através dos erros, e o ser humano terreno encontra-se em uma zona de evolução onde, precisamente por causa de seu instinto deficiente e de sua inteligência ainda imperfeita, comete uma grande quantidade de desacertos.
Graças à sua avançada capacidade de existir segundo sua própria vontade, pode escolher por si mesmo o que quer comer e beber, mas não tem nem o instinto nem a inteligência suficientes para escolher o que é absolutamente perfeito e adequado ao estado evolutivo de seu organismo.
Por isso, geralmente, o indivíduo não escolhe apenas alimentos que somente em sentido amplo podem ser considerados como tais, mas também escolhe substâncias que não são, de modo algum, alimentos.
Consumir alimentos inadequados cria um desequilíbrio no organismo. Como o desequilíbrio só pode manifestar-se sob a forma de enfermidade e dor, é compreensível que essa situação, no que se refere ao ser humano terreno, tenha dado origem a figuras como “feiticeiros”, “curandeiros”, médicos etc., que curam, com pouca ou muita sorte, os organismos minados e sobrecarregados.
Além disso, essas mesmas circunstâncias são as que conduzem a humanidade aflita a apegar-se a um sem-fim de remédios patenteados que florescem de modo exuberante, ou a qualquer tipo de pó ou líquido, desde que apresente o rótulo “remédio”, independentemente de quão perigoso ou desgastante seja para o organismo, segundo uma análise cósmica.
Do mesmo modo, foram descobertos ou inventados remédios anestesiantes que, certamente, acalmam a dor de modo temporário, mas que, na realidade, destroem a capacidade que o organismo tem de registrar a presença de matérias tóxicas e de opor-lhes resistência ou lutar contra elas.
É um fato que um modo de vida com alimentos e bebidas não naturais fomenta uma acumulação permanente de matérias tóxicas no organismo. Além disso, o consumo de “remédios” fomenta outro tipo de acumulação de substâncias tóxicas que talvez, em certas circunstâncias, possam remediar os efeitos das primeiras, mas que, em muitos casos, produzem diferentes efeitos prejudiciais e incuráveis.
Assim se consome a própria e suprema faculdade criadora do indivíduo, aquilo que no Livets Bog — “O Livro da Vida” — é citado como “X2”.
Segundo as leis eternas do amor, essa destruição progressiva culmina em uma catástrofe que, por sua própria natureza, é terrível e se manifesta como a experiência mais extrema ou dilacerante que existe. Entretanto, por causa de seu forte modo de atuar, essa catástrofe detém totalmente a destruição progressiva e, desse modo, conduz novamente o indivíduo ao normal ou natural.
Ela lhe dá vontade e força para que jamais, dentro de sua atual espiral evolutiva, possa afastar-se do caminho normal ou divino no que se refere à alimentação.
Essa catástrofe ocorre porque o indivíduo, durante certo tempo, desgastou sua faculdade criadora e, por causa disso, torna-se incapacitado — no pior dos casos, durante várias encarnações — de criar um corpo físico perfeito ou normal.
Por isso, nos períodos mencionados, deve apresentar-se no plano físico como parte do grupo de seres aos quais chamamos de “débeis mentais”.
Em relação a isso, é importante lembrar que, de acordo com o Livets Bog (“O Livro da Vida”), o modo pelo qual o indivíduo se apresenta em sua atual vida física está condicionado por três componentes hereditários que se manifestam sob a forma de suas aptidões inatas, isto é, suas próprias aptidões adquiridas em uma existência anterior e as aptidões ou tendências de seu pai e de sua mãe atuais, que, até certo grau, encontram-se presentes em seu corpo físico.
Na infância, as aptidões ou tendências do pai e da mãe o dominam de forma relativa. Esse domínio diminui gradualmente à medida que o indivíduo se aproxima dos trinta anos. A partir dessa idade, a herança do próprio indivíduo, ou seja, suas tendências inatas, passará a predominar em seu corpo até a morte.
Essa herança adquirida em uma existência anterior é decisiva para a normalidade do indivíduo na atual encarnação física. Mas esse tema é amplo demais para poder ser explicado aqui e, por isso, devo remeter o leitor interessado nessa questão à minha obra principal, Livets Bog (“O Livro da Vida”).