Artigo · Martinus
Pelo portal da morte – o sono e a morte
Por Martinus
1. A visão dogmática cristã sobre a vida após a morte
Todos nós sabemos que nascemos para este mundo e que um dia teremos de morrer. Em geral, isso não é algo em que se pense constantemente, mas de vez em quando esse pensamento surge, sobretudo quando se presencia a morte de outras pessoas, especialmente quando se trata de pessoas de quem gostávamos e cuja falta sentiremos na vida cotidiana. Na maioria das vezes, é com angústia e tristeza que as pessoas então pensam na morte.
A ideia de aniquilação e talvez também a ideia de eventualmente ter de prestar contas por ações da própria vida das quais já se arrependeu há muito tempo contribuem para tornar o pensamento da morte sombrio, triste e desagradável. Por meio da concepção materialista da vida, tem-se a impressão de que não existe vida após a morte, porque, segundo essa visão, a consciência é apenas um efeito das combinações da matéria.
Mas como o ser humano não deseja deixar de existir, embora possa haver certas formas de experiência de vida das quais gostaria de prescindir, a ideia de uma aniquilação completa naturalmente o entristece, e talvez até encha sua mente de medo e horror.
Pela religião, o ser humano é informado de que, após a morte, deverá repousar no túmulo até “o último dia”, quando Cristo julgará vivos e mortos e “separará as ovelhas dos bodes”. As “ovelhas”, ou os cristãos fiéis, que creram cegamente que Deus se reconciliou com seus pecados porque Cristo se deixou sacrificar na cruz por causa deles, então entrarão na bem-aventurança eterna do paraíso, enquanto os “bodes”, os pecadores incrédulos, serão atormentados no inferno eterno.
Essa visão dogmática da vida após a morte é algo que um número imensamente grande de pessoas em nosso tempo tem dificuldade em aceitar; assim, torna-se mais fácil acreditar que a morte é o fim da vida, não apenas para o organismo, mas também para o pensamento e a consciência. Fala-se em entrar no sono eterno ou no descanso eterno.
2. Durante o sono, vive-se inteiramente no mundo dos pensamentos e das imaginações
Há muitas pessoas que estão tão cansadas de sua existência apressada e inquieta que veem com certa simpatia esse tipo de calma e descanso. Mas descanso eterno não é descanso algum; é aniquilação e cessação da vida. O descanso é um estado que se desfruta por algum tempo em contraste com a atividade, até que se tenha descansado o suficiente, para então voltar a desejar agir, criar e experimentar novamente, porque se sente descansado.
Quando se dorme bem à noite, acorda-se disposto e renovado para as tarefas do dia seguinte. Após um sono tão profundo e sem sonhos, costuma-se dizer: “Eu estive bem longe”, e nisso há uma verdade maior do que talvez imagine quem pronuncia essas palavras.
Quando dormimos, estamos, de fato, afastados do nosso corpo físico e vivemos inteiramente no mundo dos pensamentos e das imaginações. É um mundo elétrico, constituído de raios e ondas. Mas, embora os seres humanos saibam alguma coisa sobre eletricidade, raios, ondas e forças magnéticas, sabem muito pouco quando se trata das forças, raios e ondas que constituem sua própria consciência e mentalidade.
Quando uma pessoa está cansada e sonolenta, é porque seu sistema nervoso, ao longo do dia, sofreu tanto desgaste que agora necessita de reparação e renovação. Mas tal reparo não pode ocorrer se ainda estiver passando energia por ele. É preciso “desligar a corrente” por algum tempo, e a pessoa se deita para descansar.
Ela deixa de receber impressões do mundo exterior por meio de seus aparelhos sensoriais e tenta fazer com que seus pensamentos se acalmem. Essa última tarefa pode ser um pouco difícil. Seria bom refletir um pouco sobre os acontecimentos do dia, fazer uma espécie de balanço e pensar em como eventualmente melhorar aquilo que não foi tão feliz, e então deixar esses pensamentos de lado e adormecer.
Enquanto a energia da consciência desperta deixa de fluir por algum tempo através do sistema nervoso, ocorre o reparo necessário, para que tudo esteja pronto para a manifestação da vida que deverá acontecer no dia seguinte em interação com o mundo exterior.
Mas onde está a consciência quando se dorme e há no organismo apenas tanta vida quanto a necessária para manter em funcionamento certas funções orgânicas automáticas?
3. Nossa memória está próxima de seu estágio de inverno no ciclo; por isso não temos recordação de nossas experiências durante o sono
Quando dormimos, o nosso eu continua em estado de experiência, mas, como foi fechada a entrada para as percepções sensoriais do mundo físico exterior, naturalmente não é esse mundo que experimentamos. Da mesma maneira que nosso corpo físico é cercado por um mundo físico, no qual se encontram os corpos físicos de outros seres vivos, de modo que pode surgir uma interação entre os seres vivos por meio de seus organismos físicos, também o mundo de nossa consciência é cercado por um mundo maior, constituído de matéria em forma de radiação.
Nesse mundo radiante que nos rodeia, também estaremos em condições de encontrar o mundo da consciência de outros seres vivos, se estivermos na mesma frequência dos pensamentos e imaginações que eles contêm.
Mas não é necessário possuir um corpo para poder experimentar? É absolutamente necessário. Mas um corpo não precisa ser constituído da matéria física grosseira. Existem corpos construídos de matérias ou energias muito mais sutis, os chamados corpos espirituais. Eles são de natureza puramente elétrica, e todos nós possuímos tais corpos além do nosso corpo físico.
No processo que chamamos de sono, a consciência e, com ela, a capacidade de experimentar são transferidas do corpo físico para os corpos espirituais; assim, é realmente correto quando se diz que, durante o sono, se esteve “bem longe”, pois a capacidade de experimentar, nesse estado, não está ligada ao tempo e ao espaço da mesma maneira que durante a experiência através do corpo físico.
Mas por que em geral não conseguimos nos lembrar do que experimentamos enquanto nosso corpo físico dormia? Porque nossa capacidade de memória é uma faculdade muito degenerada; ela está muito próxima de seu estágio latente em seu ciclo.
São energias e faculdades completamente diferentes as que, neste momento, dominam a consciência humana terrestre. Em geral, não se consegue lembrar das encarnações anteriores, nem mesmo de tudo o que se experimentou na encarnação atual. Consegue-se lembrar do que aconteceu em um determinado dia, apenas duas semanas atrás, às duas e meia da tarde? É exceção conseguir isso.
Nossa memória está em seu “estágio de inverno” no ciclo; em termos de memória, o ser humano terreno é como a árvore sem folhas na floresta. Mas depois do inverno vêm a primavera e o verão; haverá um tempo em que o mesmo ser, por meio de sua memória, poderá mover-se milhares, sim milhões de anos para trás no tempo e ver o que então experimentou.
Mas então já não será um ser humano terreno; será consciente de sua origem cósmica como uno com a Divindade e, assim, idêntico à eternidade, experimentando a si mesmo como senhor do tempo e do espaço. Então, a troca primitiva de organismos que chamamos de morte será há muito um estágio superado da evolução, uma vez que o ser, no nível de desenvolvimento em que então se encontrará, dominará soberanamente todas as matérias do universo e precisará apenas pensar para que a matéria mude de forma e se transforme por sua ordem.
4. Além de certo limite, os seres vivos não podem crescer em conhecimento e capacidade sem crescer ao mesmo tempo em moral e amor
Mas, para que um dia o ser vivo possa experimentar uma existência tão maravilhosa, naturalmente precisa primeiro aprender a pensar cem por cento em conformidade com as leis da vida. Imagine se os seres humanos terrestres atuais tivessem o mesmo poder soberano sobre a matéria que o ser mencionado anteriormente! Que terrível Ragnarök isso não poderia provocar? Mas felizmente isso é completamente impossível.
Além de certo limite, os seres vivos não podem crescer em conhecimento e capacidade sem crescer ao mesmo tempo em moral e amor. As encarnações repetidas do ser humano terreno no mundo físico são como um período de aprendizagem, em que ele é preparado para um dia poder experimentar e criar plenamente na matéria espiritual.
O ser então não pode aprender isso nos mundos espirituais? Não, não pode; ele deve experimentar um mundo em que pensar errado dói, para realmente aprender a pensar. Deve experimentar um mundo em que a matéria oferece resistência e precisa ser vencida, para que sua capacidade de pensar possa se desenvolver, e deve aprender a lidar, com tolerância, compreensão e amor ao próximo, com seres com os quais não se sente em sintonia.
Tudo isso só pode ser experimentado em um mundo físico, e como as energias físicas estão sujeitas às leis do ciclo, o ser vivo deve visitar a “escola” ou o mundo físico de tal modo que, em períodos alternados, crie para si um organismo físico, que é, portanto, uma espécie de uniforme escolar cósmico, por meio do qual o ser pode criar e experimentar no plano físico.
Esse “uniforme escolar” pode durar certo tempo, aquilo que conhecemos como a expectativa média de vida do ser humano terreno, se não for exposto a agressões excessivas ou demasiado grandes. Nesse caso, ele se desgasta antes do tempo, e sua utilidade é reduzida, às vezes tanto que precisa ser completamente descartado.
Acidentes e doenças podem fazer com que o ser humano terreno morra muito antes de alcançar os “anos do pó”, quando normalmente deveria deixar o mundo físico saciado de dias e contente por abandonar um organismo que então já estaria tão desgastado que uma manifestação e experiência normais da vida já não poderiam mais ocorrer através dele.
5. Sono insuficiente provoca nervos abalados e reduz a capacidade de experiência e de trabalho
Uma das causas que contribuem para que o organismo possa ser mantido e seja não apenas um instrumento utilizável, mas genial para o nosso espírito vivo, é que tenhamos o sono necessário, de que tanto precisamos. Como já mencionado, o sistema nervoso é submetido a desgaste todos os dias e, justamente por ser a rede condutora que faz a ligação entre nossa estrutura espiritual ou elétrica e nossa estrutura física, é muito importante, tanto para nossa capacidade de experimentar quanto para nossa capacidade de criar no mundo físico, que essa rede condutora esteja em ordem.
Sem sono suficiente, a pessoa fica com os “nervos abalados”, sem disposição, e tanto a capacidade de experimentar quanto a capacidade de trabalhar ficam reduzidas. Pode ser uma doença física, um problema de estômago ou algo semelhante a causa da falta de sono suficiente, mas também pode haver causas psíquicas.
Quando a pessoa se deita para dormir, fecha-se para as impressões do mundo exterior. Mas nem sempre consegue fechar-se para as impressões que já recebeu. Os pensamentos giram em torno do que aconteceu ao longo do dia, e entre eles podem estar aborrecimentos e acontecimentos desagradáveis ou pessoas que a irritaram, ou pode haver algo que ela fez ou disse e que lhe causa arrependimento ou aborrecimento.
Muitas pessoas podem ficar deitadas por muito tempo presas a esses pensamentos, o que as impede de desligar, para que o sistema nervoso possa se recuperar. Talvez cochilem um pouco e logo estejam acordadas novamente, continuando a deslizar de um lado para outro entre o sono e o estado desperto de tal modo que, na verdade, destroem tanto o estado físico quanto o espiritual.
O estado físico é prejudicado porque submetem o sistema nervoso a desgaste adicional em vez de deixá-lo em paz para que o desgaste já existente possa ser reparado. E sua vida espiritual, isto é, as experiências que de outro modo poderiam ter tido no plano psíquico enquanto o organismo descansava, é constantemente perturbada e interrompida quando voltam a entrar no estado de semivigília.
Em tais condições anormais é que se podem experimentar sonhos que são ou verdadeiros pesadelos ou uma confusão terrível. Tornam-se assim porque certos lampejos da experiência no plano espiritual se misturam às preocupações, aborrecimentos, medo ou excitação de que a consciência estava cheia pouco antes de a pessoa adormecer.
O que se pode fazer para evitar isso? Aqui, como em tantos outros casos, vale o fato de que, se o ser humano, antes de cair no sono, concentrar-se na Divindade em oração, poderá obter paz na consciência. Pode pedir ajuda para, nos dias vindouros, conseguir lidar com os acontecimentos que criaram suas preocupações ou aborrecimentos.
Toda vez que se adormece à noite, “morre-se”, embora seja apenas por uma noite que se permaneça afastado do mundo físico. O corpo físico é mantido por certas forças e funções automáticas, mas a consciência não deve ter nada a ver com ele durante a noite, e na verdade só há esta diferença entre o sono e a morte: o processo automático de manutenção e renovação, que ocorre a partir do plano espiritual durante o sono, cessa quando é a morte que se instala.
Ao aprender a adormecer da maneira correta, aprende-se de fato a morrer da maneira correta, pois, assim como se pode ter pesadelos e sonhos ruins quando se deixam os pensamentos girar em um “círculo vicioso” do qual parece impossível sair, também, quando se adormece para não mais despertar no mundo físico no mesmo corpo físico, pode-se cair em tais círculos desagradáveis de pensamento, que por algum tempo poderão criar uma espécie de “experiência de inferno” ou “purgatório” para a pessoa.
6. A “morte” é um sono que dura um pouco mais do que o sono comum
No processo que aqui no mundo físico chamamos de “morte”, também se adormece afastando-se das experiências do mundo físico, e esse “sono” dura um pouco mais do que aquilo que em geral entendemos por dormir. Mas, assim como é apenas o corpo físico que deve descansar quando dormimos “o pequeno sono”, enquanto nossa consciência está em atividade no mundo espiritual, também são apenas certas faculdades e talentos que repousam por um tempo enquanto estamos “mortos” para o mundo físico, no qual voltaremos a despertar, mas então em um corpo físico inteiramente novo, através do qual teremos novas possibilidades e oportunidades de experimentar e criar coisas com que, na encarnação anterior, chegamos apenas a sonhar.
7. Aquilo que chamamos de morte pode tornar-se como um belo pôr do sol no mundo físico e um maravilhoso nascer do sol no mundo espiritual
Irritação, decepção, amargura, medo, remorso e climas mentais semelhantes podem, assim, criar maus sonhos e pesadelos durante o sono, se antes não se tiver conseguido vencer esses pensamentos e sentimentos na própria consciência. Aqui, a oração é um fator de poder imensurável, pois, ao aprender a adormecer da maneira correta, a pessoa, na verdade, aprende a morrer da maneira correta, isto é, sem qualquer “círculo vicioso” de pensamentos negativos.
Se uma pessoa realmente trabalha para erradicar pensamentos sombrios de sua mente e pede ajuda para atravessar suas dificuldades, não apenas perceberá que sua vida cotidiana ficará mais clara e melhor, mas, quando chegar o momento em que ela tiver de deixar completamente seu organismo físico, esse processo será como um belo pôr do sol no mundo físico e um maravilhoso nascer do sol no mundo espiritual.
8. Todo ser humano pode fazer muito para que sua despedida deste mundo se configure de forma harmoniosa e bela
Sabemos como um pôr do sol pode ser totalmente coberto por nuvens escuras, de modo que não haja aquele belo cenário de cores douradas que, para muitas pessoas, representa uma das experiências mais encantadoras que tiveram na natureza. Assim também o pôr do sol mental que chamamos de morte pode escurecer-se, tornando-se sem beleza, paz e harmonia.
Não digo isso para assustar ninguém, muito pelo contrário. Quero enfatizar que todo ser humano pode fazer muito para que sua despedida deste mundo se configure de forma harmoniosa e bela, e igualmente para que seu “nascimento” no mundo espiritual seja uma recepção maravilhosa, na qual o ser seja recebido por parentes e amigos que ama e que anteriormente já passaram pelo portal da morte.
Mas, para poder evitar que a morte se configure como algo sombrio e triste, é precisamente importante saber que misturas de pensamentos podem causar um eventual “purgatório” ou “experiência de inferno” no período inicial após deixar o corpo físico e antes de passar por aquele ciclo nos altos mundos espirituais pelo qual todos os seres, até mesmo o pior criminoso, passam antes de voltar a encarnar no mundo físico.
Naturalmente, não posso dizer o que cada pessoa virá a experimentar em detalhes; isso depende em alto grau dos pensamentos e sentimentos que ela traz na mente, do quanto sua intuição está desenvolvida e de quais capacidades e talentos especiais ela desenvolveu durante sua vida no mundo físico. Mas posso dizer algo sobre as leis que estão na base dessas experiências e esboçar, em linhas gerais, algumas das possibilidades que esperam diferentes pessoas após a morte, especialmente em relação a se deixam o mundo físico ainda na infância, ou se morrem como jovens, como pessoas em idade madura ou como pessoas idosas e saciadas de dias.
9. A morte não é algo que o ser humano deva temer
Quando uma pessoa experimentou a consciência cósmica e, por isso, teve ampliada sua capacidade de experiência, de modo a não apenas poder experimentar de forma desperta no plano físico, mas também ser capaz, enquanto está em seu organismo físico, de experimentar de forma desperta no plano espiritual, ela também pode experimentar a morte de tal modo que esteja consciente de sua estrutura e missão.
A partir dessa experiência cósmica da morte, ela se expressará como um grande portal para outra forma de vida ou de existência. Todos os seres físicos devem passar por esse portal; é algo que todos sabem com certeza, embora não seja algo em que se pense diariamente.
Enquanto a morte for algo em que o ser humano pensa apenas com pavor e terror, é naturalmente bom que ele consiga, por assim dizer, afastar de si o pensamento da morte. Mas isso resulta em que essa mesma pessoa, quando de repente se vê diante do fato irrevogável de que alguém próximo a ela ou ela mesma vai morrer, esteja totalmente despreparada para a morte, o que pode tornar muito mais difícil passar por esse processo.
E a verdade é realmente que a morte não é algo de que o ser humano deva andar com medo. Se ele tentar se familiarizar com o pensamento de que um dia deverá partir do mundo físico — algo que, aliás, esse mesmo ser já experimentou infinitas vezes antes, ainda que não possa se lembrar disso em estado desperto — e se, ao mesmo tempo, dia após dia buscar purificar sua consciência de pensamentos sombrios, então a morte não poderá ser outra coisa senão uma das mais belas experiências que um ser humano pode vivenciar.
10. No grande portal principal para os mundos espirituais, existem quatro portais menores
Através do portal da morte, pode-se chegar a muitos mundos ou esferas bastante diferentes. Não são lugares da mesma maneira como se fala de lugares no mundo físico; são estados ou frequências, já que o mundo espiritual é um mundo inteiramente elétrico. Por isso também acontece que cada um chega justamente a experimentar, no mundo espiritual, aquilo com que pode entrar em sintonia por meio do seu próprio estado de consciência — nem mais nem menos.
As palavras de Jesus: “Na casa de meu Pai há muitas moradas” são precisamente uma expressão de todas as possibilidades que existem na vida após a morte em relação aos anseios, desejos, crença, modo de pensar, imaginação e capacidade criadora dos diferentes seres.
Pode-se dizer que, no grande portal principal que conduz à vida nos mundos espirituais, existem quatro portais menores: um para os seres que morrem crianças, um para os que morrem na primavera da juventude, um para as pessoas que morrem em idade madura e um para os idosos que morrem de morte natural, saciados de dias no mundo físico.
A partir de cada um desses quatro portais, os seres vivos podem passar para diferentes esferas e zonas com as quais, em virtude de seu estado mental particular, seu caráter, talento e capacidade de amar, estejam em sintonia.
11. As leis e os princípios que atuam na morte de uma criança e em sua vida no mundo espiritual
As causas pelas quais um ser humano já deixa seu organismo físico na infância podem naturalmente ser muitas, e aqui mencionarei apenas algumas. Em encarnações anteriores, pode ter destruído sua capacidade de construir um novo organismo físico saudável e normal, de modo que o corpo que forma no ventre materno é rapidamente destruído pela doença, caso a criança não nasça morta.
Pode também ter criado para si um destino que faz com que não esteja protegida contra acidentes e venha a morrer de modo infeliz, e pode, em algum momento, ter sido causa da morte de outras crianças. Há muitas possibilidades. Mas, qualquer que seja a causa cármica de uma pessoa morrer na infância, o desconforto que ela criou para si não está no próprio processo de morte.
Naturalmente pode haver medo na consciência de uma criança se ela for morta de repente, mas esse medo será imediatamente afastado por sugestão de seres do plano espiritual. O desagradável está em que esse ser, que recentemente havia criado para si um organismo físico através do qual deveria experimentar, criar e adquirir novas experiências em benefício de seu desenvolvimento posterior, de repente tem essas possibilidades interrompidas e, após uma estadia relativamente curta nos mundos espirituais, precisa novamente sobrecarregar seus núcleos de talento para criar um novo organismo físico a fim de fazer as experiências necessárias no mundo físico, onde os seres, vez após vez, precisam encarnar, porque é aqui que devem aprender a pensar.
Mas o próprio processo da morte, quando se trata da morte de uma criança, não é sombrio. Em geral, ele é completamente sem “purgatório”, porque a criança não tem pensamentos sombrios em sua consciência, e se existirem, são de caráter tão fugaz que os espíritos protetores logo os afastam por sugestão.
O princípio do espírito protetor é um princípio universal. Vale tanto no mundo físico quanto no espiritual, e, assim como existem parteiras quando nascemos para o mundo físico — processo que, na verdade, é uma morte em relação ao mundo espiritual — também existem parteiras quando morremos para o mundo físico e nascemos para o mundo espiritual.
Esses ajudantes, espíritos protetores ou anjos da guarda, seja qual for o nome que se lhes dê, são seres que têm capacidades e vontade especiais de ajudar os outros, e, por causa do princípio universal de atração e repulsão, acabam justamente ajudando os seres aos quais são especialmente aptos a prestar auxílio.
Isso quer dizer que os seres espirituais que, logo após o processo da morte, cuidam da criança que deixou seu organismo físico são precisamente seres que irradiam um forte amor pelas crianças e que têm, em alto grau, capacidades para ajudar e orientar esses seres.
O mundo da criança é um mundo de brincadeira e de conto de fadas, e isso também passará a marcar suas primeiras experiências depois que tiver deixado seu corpo físico. Ela irá literalmente para um jardim de infância, onde seres amorosos cuidarão dela e onde a brincadeira e os contos de fadas dominarão sua existência.
Mas, enquanto no mundo físico a criança precisaria ouvir contos lidos em um livro, a experiência do conto de fadas no mundo espiritual é muito mais viva e realista. No mundo espiritual, acontece que as matérias obedecem às ordens do pensamento e da vontade. O contador de histórias só precisa pensar seus contos para que eles apareçam vivos diante das crianças, não apenas como imagens, mas em estados móveis e plásticos, cercados pelas mais belas paisagens e cenários.
Entre os espíritos protetores que cuidam das crianças pode haver seres que, no mundo físico, foram grandes contadores de histórias e poetas. Enquanto “contam” seus contos, sua concentração mental pode às vezes ser tão forte que eles próprios desaparecem por trás de suas energias mentais, de modo que se veem apenas as imagens mutáveis de pensamento de sua fantasia.
Essa esfera dos contos de fadas naturalmente não é apenas para as crianças, mas para todos os seres do plano espiritual que estão libertos da escuridão e do “purgatório”, desde que seus pensamentos, sentimentos e interesses estejam em sintonia com tal mundo. E essa esfera está tão próxima do plano físico que suas energias podem influenciar pessoas receptivas aqui, por exemplo poetas e criadores de desenhos animados, que muitas vezes são inspirados por esse mundo mental, que está longe de ser entediante.
Para a criança, porém, chegará o momento em que estará saciada das experiências nesse mundo de brincadeira e conto de fadas, e com a ajuda dos espíritos protetores passará pelas esferas intelectuais, onde não terá tanto a experimentar, mas onde tudo o que se experimenta é luminoso e radiante.
Em breve chegará a experimentar a esfera da memória ou reino da bem-aventurança, de onde voltará a encarnar no mundo físico. As recordações de vidas físicas anteriores enchem sua consciência de bem-aventurança, e sua energia de anseio se concentra cada vez mais na existência física.
Essas energias de anseio e bem-aventurança se unem à irradiação de bem-aventurança que emana de dois seres físicos que experimentam o ápice de seu amor mútuo. Naturalmente, não é por acaso que um determinado homem e uma determinada mulher serão os pais desse ser em uma nova encarnação física; também aqui valem as leis universais de atração e repulsão entre as energias irradiadas pelos seres vivos, energias que passam a formar destino tanto para os pais quanto para o ser do qual agora deverão ser anjos da guarda no mundo físico, até que ele seja capaz de cuidar de si mesmo.
12. Como o processo da morte se configura para a pessoa que morre em plena juventude
Se uma pessoa morre em plena juventude, o que ela virá a experimentar no período inicial após a morte naturalmente se configurará de modo diferente do que se tivesse deixado seu corpo físico na infância. A consciência do jovem está preenchida por pensamentos e sentimentos completamente diferentes dos da criança, e isso também passará a marcar suas experiências no plano espiritual.
Como a juventude muitas vezes pode ser uma idade difícil, em que a consciência humana está cheia de oposição e crítica e, ao mesmo tempo, naturalmente muito concentrada no mundo físico, numa carreira, no amor por alguém do sexo oposto etc., uma interrupção da existência física nessa idade pode trazer certas dificuldades, especialmente se a morte vier de repente.
Se isso ocorre por doença, o jovem terá tempo de ser preparado para a morte. Mesmo que talvez não o perceba diretamente por meio de sua consciência desperta, isso acontece à noite no plano espiritual. Mas, se for uma morte repentina, por exemplo num acidente de trânsito ou algo semelhante, pode passar algum tempo antes que ele talvez perceba que está morto.
Naturalmente, o que acontece em detalhes é individual, mas as mesmas leis e princípios valem para a passagem de todos os seres humanos pelo portal da morte. Os jovens também podem ser muito diferentes quando se trata de maturidade espiritual, e pode haver jovens muito mais maduros em questões espirituais do que muitos idosos; e para esses jovens a passagem para o outro mundo não será tão difícil, porque pedirão ajuda muito rapidamente, e os ajudantes estarão imediatamente junto deles.
Mas, se for um jovem cuja consciência inteira está concentrada no físico, sem qualquer crença em vida após a morte, seus pensamentos poderão, por algum tempo, continuar girando em torno dos últimos acontecimentos que ocorreram antes de ele morrer, assim como se pode fazer num sonho desagradável.
Ele está cercado por seu próprio mundo de pensamentos como por uma prisão mental da qual não consegue sair. Talvez, em sua concentração mental, percorra repetidas vezes o caminho até o local do acidente, como que para reconstruir e compreender o que aconteceu.
No plano físico, uma pessoa com faculdades clarividentes seria capaz de ver o acidentado dirigir-se até o local do acidente, onde de repente desaparece, porque ali cessa a concentração mental. Trata-se, portanto, daquilo que em geral se chama de “assombração”, e que também se baseia em leis e princípios especiais que a ciência, com o tempo, virá a compreender.
O jovem perceberá que aconteceu algo que ele não consegue entender; uma massa de pensamentos de sua vida física passará por sua consciência, não como algo que ele tem dentro de si, mas como algo que o rodeia. E, por mais materialista e ateu que ele próprio achasse que fosse, em sua aflição pedirá ajuda, e a ajuda estará ali imediatamente.
Os espíritos protetores estiveram o tempo todo prontos para ajudar, mas o ser precisa, por sua própria mente, sintonizar-se na frequência deles; então a ajuda pode chegar. Como esses espíritos protetores se mostram àqueles que devem ajudar?
13. Os espíritos protetores se mostram na forma que, na situação dada, será de maior ajuda
Será como aqueles anjos que víamos na Bíblia ilustrada da infância, com auréola radiante, vestes brancas e asas de anjo, que os espíritos protetores se mostram ao ser que devem ajudar? Apenas se aquele que deve ser ajudado esperar que eles tenham essa aparência; caso contrário, não, se ele não estiver ciente do que realmente aconteceu.
No mundo espiritual, a matéria psíquica obedece às ordens da vontade e do pensamento, e por isso o espírito ajudante pode, com sua vontade e pensamento, moldar seu corpo espiritual e mostrar-se na forma que, naquela situação, será de maior benefício e ajuda.
Talvez o espírito protetor seja um ser que conheceu aquele que deve ser ajudado durante sua vida no mundo físico e, então, se mostrará nessa forma conhecida para poder consolar, beneficiar e orientar.
Também existe a possibilidade de que aquele que necessita de ajuda sinta que um médico, uma enfermeira ou ajudantes semelhantes do mundo físico seriam precisamente a ajuda certa; e então seres que se assemelhem a eles também aparecerão, e afastarão por sugestão os pensamentos sombrios da consciência da pessoa infeliz e, pouco a pouco, a tornarão consciente do que aconteceu, ajudando-a a se orientar e conduzindo-a à esfera espiritual que, naquele momento, estará em sintonia com os pensamentos e sentimentos dominantes em sua consciência.
Em nosso tempo, em que tantos jovens soldados morreram no campo de batalha com a consciência cheia de medo, e isso aconteceu tão de repente que eles nem sabem que estão mortos, a ajuda em muitos casos será justamente de soldados da Cruz Vermelha, enfermeiras e médicos, e eles despertarão num lazareto e pouco a pouco se acostumarão com a ideia de que não sofrem de nada, desde que eles próprios não acreditem que sofrem.
Algo semelhante vale se uma pessoa morreu após um longo período de doença. Também ela poderá, no período inicial após a morte, experimentar a atmosfera e o ambiente de um hospital e estar cercada de enfermeiras e médicos amorosos, até descobrir que a doença existe apenas em seu próprio mundo mental; e, quando esses pensamentos são vencidos, os espíritos protetores já não precisam mais mostrar-se como cuidadores para estarem na mesma frequência daquele que precisava de ajuda e orientação.
14. As concepções religiosas sobre o paraíso
Se os sentimentos religiosos da pessoa despertarem ao perceber que se encontra no estado após a morte, sua consciência talvez se concentre na fé infantil que algum dia teve e em ideias de anjos e de um paraíso.
Tais esferas também existem, e são tão coloridas e belas quanto as pinturas religiosas dos antigos mestres. O Senhor está sentado em seu trono cercado por uma multidão de anjos e homens e mulheres santos vestidos de esplendor e glória. Cristo está sentado à direita do Pai, e o Espírito Santo paira sobre eles como uma pomba.
Aquele que experimenta tudo isso é ele próprio um dos integrantes da grande multidão vestida de branco, que toca harpas e agita ramos de palmeira em meio a hinos e júbilo, até que esse belo cenário se torna cansativo por falta de renovação; e então já não é paraíso, então se tornaria literalmente um inferno, caso tivesse de continuar por toda a eternidade.
Imagine: ter de fazer sempre a mesma coisa, eternamente! E experimentar sempre o mesmo, ainda que fosse belíssimo! Isso absolutamente não seria paraíso; teria de tornar-se inferno. Mas não é assim; a vida é renovação e transformação incessantes.
15. Os estados coletivos de paraíso desaparecerão em favor da criação de um “reino dos céus”
Esse reino dos céus mencionado é apenas uma entre muitas esferas, e não faz parte dos altos mundos espirituais, mas apenas de um estado no átrio desses mundos, um estado intermediário em que a consciência humana ainda é fortemente dominada pelas concepções que formou sobre o além enquanto vivia no mundo físico.
Por isso, naturalmente, também existem paraísos semelhantes e belos para muçulmanos, hindus, budistas e para pessoas que ainda pertencem a religiões mais primitivas, assim como outrora houve uma esfera em que aqueles que acreditavam em Odin, Thor e Valhalla se sentavam à mesa com deuses e heróis.
Esses estados coletivos de paraíso, baseados na crença dogmática, porém, desaparecem cada vez mais; baseiam-se no instinto religioso e em sentimentos religiosos, mas à medida que o pensamento criador se desenvolve no ser humano terreno em conexão com a humanidade e o amor ao próximo, desenvolve-se em sua consciência um “reino dos céus” que, pouco a pouco, deverá ser criado na Terra: um mundo de espírito, arte e lógica, de paz, liberdade e fraternidade, um verdadeiro reino humano.
Tal mundo jamais poderia vir a existir na matéria física, se antes não existisse na matéria espiritual. Ele existe: é o corpo de sentimento do ser da Terra, e nesse mundo o ser humano terreno agora experimenta tudo o que é puramente humano e com o que sua consciência consegue entrar em sintonia.
É também dessa esfera que vêm os espíritos protetores, e ele próprio pode tornar-se espírito protetor na medida em que sua capacidade de amor ao próximo e sua capacidade de pensar e criar se desenvolvem.
16. A experiência do processo da morte para a pessoa que morre em idade madura
Se se trata de uma pessoa na idade adulta ou madura que partiu do mundo físico, as experiências no átrio ou estado intermediário serão marcadas pelos pensamentos e sentimentos de que um homem ou uma mulher nessa idade se ocupam.
Naturalmente, isso é muito individual e, por isso, só pode ser tratado em linhas gerais, mas na idade madura é muito frequente que o ser esteja fortemente absorvido pela atividade física e tenha concentrado a maior parte de sua consciência e de seu amor nela.
Um homem talvez esteja cercado por um grande empreendimento que é resultado de muitos anos de trabalho, ou esteja no meio da manifestação de uma criação intelectual, atrás da qual também há muitos anos de esforço e forte concentração, e de repente morre e fica sem o instrumento físico que o ligava ao mundo no qual sua manifestação criadora ocorria, mas ainda cheio de todos os pensamentos que o ligavam ao trabalho e ao seu progresso e sucesso no mundo físico.
Não é difícil compreender que uma pessoa possa cair em dificuldades quando sua consciência está cheia de planos e de desejo de realizá-los na realidade física e, de repente, perde o único instrumento por meio do qual esse trabalho pode ser feito. Em princípio, é o mesmo que se um artesão perdesse de repente as duas mãos aqui no mundo físico. É uma catástrofe.
Temos, no entanto, no mundo físico, exemplos brilhantes de como pessoas que se tornaram inválidas ainda assim conseguem seguir em frente graças a uma vontade indomável, a uma paciência incansável e, naturalmente, à ajuda amorosa e à compreensão de outras pessoas.
Então, a pessoa fica “inválida” quando perde seu corpo físico? Naturalmente não deveria ficar, mas pode sentir-se como se estivesse, se sua consciência tiver estado quase exclusivamente concentrada nos fenômenos do mundo físico e em sua própria felicidade e carreira físicas.
Se sua atividade não tiver sido particularmente marcada pelo egoísmo, mas tiver tido um forte elemento de altruísmo por meio do desejo de ser útil aos outros, a passagem não será difícil, pois se trata precisamente de uma atividade que se encaixa perfeitamente nas frequências do mundo espiritual e pode ser manifestada por meio dos corpos espirituais.
Mas, se tiver sido uma manifestação de vida baseada principalmente no desejo de obter poder e riqueza, talvez até à custa dos outros, ou se o desejo de honra, fama e distinção por meio da criação intelectual tiver sido maior do que o impulso de encontrar a verdade ou criar algo em benefício e alegria dos outros, então poderão surgir grandes dificuldades para a pessoa antes que se acostume ao estado espiritual.
Com faculdades clarividentes, seria possível vê-la “assombrando” em sua atividade física, porque está presa a trilhas mentais bem determinadas, das quais naturalmente será libertada quando pedir ajuda, porque perceberá que tudo é diferente de como antes era.
Se for uma mulher que deixa o mundo físico em sua idade madura, naturalmente ela também terá de aprender que não precisa mais ficar cuidando da casa, cozinhando e fazendo muitas outras coisas semelhantes às quais está acostumada. Sua maior preocupação talvez sejam os filhos, que ainda não conseguem cuidar de si mesmos. Mas será ajudada pelos espíritos protetores a ver que eles também estão amparados, e talvez ela própria possa até demonstrar-lhes seu amor e seu cuidado a partir do mundo espiritual, pois também tem a possibilidade de tornar-se espírito protetor deles.
Pelo portal da morte, o ser humano terreno passa primeiro por um estado intermediário ou átrio para os mundos espirituais, e as experiências ali constituem um processo de desabituação de pensamentos e sentimentos excessivamente marcados pelo materialismo, ou do medo, da raiva, da amargura, da má consciência e de climas mentais semelhantes, que são todos vibrações que não podem entrar em sintonia com as vibrações dos mundos superiores.
É, ao mesmo tempo, uma adaptação aos princípios e leis que reinam nos mundos espirituais e valem para os corpos espirituais, que agora devem sustentar a consciência do ser. As experiências do átrio podem configurar-se como uma espécie de purgatório ou inferno, se aquele que deixou seu corpo físico tiver conflitos em sua mente ou estiver fortemente preso a hábitos mentais físicos.
Mas, em todos os casos, esses estados cessarão depois de um tempo mais curto ou mais longo com a ajuda dos espíritos protetores, e o ser humano terreno, como célula nos corpos espirituais do globo terrestre, experimentará maravilhosas férias das dificuldades do mundo físico e, de acordo com suas capacidades e interesses, vivenciará as mais altas esferas da arte de viver e os seres que ali têm sua morada, ao mesmo tempo em que poderá estar junto de seres que conheceu e amou no mundo físico.
17. A morte natural do ser humano em razão da velhice
A forma mais bela de morte que um ser humano terreno pode experimentar é a morte natural em razão da velhice. Ele amadureceu para a existência espiritual, e já não há mais nada aqui no mundo físico que retenha seus pensamentos.
Naturalmente nem todos os idosos têm paz na mente, e, se não a tiverem, também terão de passar por sua forma especial de purgatório, mas essas são as exceções. Em geral, a velhice torna as pessoas mais brandas, mais tolerantes e capazes de resignação; a própria vida as preparou para aquilo que deverá acontecer quando deixarem o invólucro que está desgastado e já não pode mais ser usado.
Isso é uma libertação para elas, e essa é a função natural da morte para os seres humanos terrenos: serem libertados do instrumento que já não pode mais servir-lhes e terem permissão para usar as capacidades e talentos que desenvolveram em sua existência física para experiências maravilhosas nos mundos espirituais.
E, quando tiverem experimentado tudo o que, em seu atual estágio de desenvolvimento, lhes é possível, receberão um novo organismo no plano físico, por meio do qual poderão continuar seus “estudos para aprender a pensar em conformidade com as leis da vida”, pois essa é a verdadeira missão da existência física.
Quando a pessoa idosa deixou seu corpo desgastado, muitas vezes de tal forma que foi serenamente adormecendo na morte, experimentará algo que, se tivesse tido a possibilidade de despertar novamente e contar sobre isso, chamaria de um sonho maravilhoso.
Como esse “sonho” se apresenta em seus detalhes é, naturalmente, algo individual, mas poderia muito bem configurar-se, por exemplo, assim: o idoso percebe-se de repente num estado de liberdade até então desconhecido, livre de todo peso, tanto corporal quanto anímico. Vê um portal radiante, que agora se lembra de já ter visto muitas vezes antes durante o sono, mas do qual não lhe tinha sido possível se aproximar completamente.
Porém, pôde observar como ele se abria para outros seres que estavam totalmente libertos da ligação com seu corpo físico e que, por isso, podiam atravessá-lo. Nessas ocasiões anteriores, pôde como que entrever como uma poderosa luz irradiava ao encontro dos seres que deviam passar pelo portal.
Desta vez, ele próprio é o objeto desse poderoso esplendor, e vê que já não tem um corpo velho e desgastado, mas um novo e juvenil, que irradia e resplandece com um brilho nacarado.
No portal estão figuras ainda mais luminosas e cintilantes, recebendo-o; as cores mais radiantes do céu da manhã e da tarde iluminam todo o belo cenário, e o recém-chegado descobre que os seres que, à primeira vista, pareciam anjos são velhos amigos e queridos parentes que ele conheceu, talvez ao longo de muitas encarnações.
Durante tudo isso, soa uma bela música, e do outro lado do portal veem-se agora paisagens maravilhosas que se estendem ao longe. Há florestas e lagos, uma vegetação exuberante e muitos pássaros, cujo canto sobe ao céu e se mistura com a música das esferas.
O velho ser moribundo do plano físico tornou-se um anjo radiante e passará algum tempo experimentando o mundo desses seres e também se tornará um anjo da guarda para seres na Terra ou em seu próprio purgatório, que necessitam de ajuda.
Mas toda essa revelação é apenas o portal da morte. É a iniciação para uma vida na esfera da luz; dali partem caminhos para belos mundos divinos, onde o ser virá a experimentar a mais alta forma de alegria, bem-aventurança e paz possível em seu atual estágio de desenvolvimento.
Ser-lhe-á permitido experimentar a proximidade da Divindade com uma intensidade como jamais experimentou antes nesta espiral, e então o caminho seguirá em direção a uma nova encarnação física, em que novas possibilidades se abrirão para o desenvolvimento posterior, de modo que as esferas da luz, um dia, não sejam apenas mundos que o ser visita entre duas encarnações físicas, mas sua morada, onde experimenta e cria em benefício do todo.