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Artigo · Martinus

Ser um com o Pai

Por Martinus

1. A vida terrena dá a todos os seres vivos a “consciência de Deus”

Toda a vida terrena, a passagem pelo reino animal ou pelas zonas do princípio de matar, é uma iniciação, é um desenvolvimento que conduz ao “grande nascimento”, no qual o ser se torna consciente na Divindade e se torna um com o Pai.

Toda essa passagem, essa vida no reino animal, baseia-se exclusivamente em levar o ser a uma culminação especial na aquisição de conhecimentos sobre os efeitos do chamado “mal”, que por sua vez é o mesmo que “sabedoria absoluta”. Essa “sabedoria absoluta” é o mesmo que “o Espírito Santo”, o que novamente quer dizer o mesmo que “consciência de Deus”.

Assim, toda a vida terrena baseia-se em, ou tem como finalidade, por meio do desenvolvimento, conceder a todos os seres vivos a “consciência de Deus”. Quando esse objetivo é alcançado e o ser está preenchido com essa consciência divina, ele percebe a si mesmo como sendo “um com o Pai”.

Tornou-se completamente soberano no sentido mental. Sabe, de forma totalmente independente dos outros, o que é “bom” e o que é “mau”, e, por isso, só pode estar em contato com a vontade divina. Para esse ser não existe nada que esteja acima ou ao nível dessa vontade, e assim a Divindade tornou-se o “ponto fixo” absoluto desse ser.

Ele fala com Deus como um homem fala com o seu próximo. Que o destino desse ser, assim, está fundamentado numa felicidade firme, inabalável e duradoura, é naturalmente evidente.

Isso significa, por sua vez, que se todos os seres humanos da Terra já tivessem alcançado tal estágio, a Terra seria um “paraíso” baseado na mais elevada sabedoria absoluta. Seria um mundo em que o militarismo, a polícia e o sistema judicial, assim como todas as discussões e associações políticas e sectárias, se tornariam supérfluos, pois todos os seres carregariam a lei do amor em seus corações e cérebros.

Todos existiriam apenas para servir a todos. O amor ao próximo seria o fator mais radiante e querido dos seres. O mundo brilharia com a bênção divina. A mensagem de Natal “paz na Terra” seria uma realidade viva e onipresente.

2. Um completo “reino de felicidade” não pode ser criado pela política

Mas por que ainda não é assim? Todos os seres humanos hoje não querem a paz? Não desejam todos que a Terra estivesse livre de guerra, assassinato, morte e mutilação, livre de roubo, ódio e perseguição, livre de inveja, ciúme, difamação e coisas semelhantes?

Sim, todos os seres desejam uma paz absoluta quando se trata de sua própria vida, do seu próprio destino. Mas esse desejo não é tão absoluto quando se trata do destino do próximo. Centenas de milhares de seres humanos atuais têm, dentro do seu campo de visão, pessoas em relação às quais a sua antipatia é tão forte que sentiriam como uma terrível injustiça se um destino feliz repentinamente fosse concedido a esses seus inimigos.

Não se considera justo que este ou aquele infortúnio recaia sobre os seus desafetos? E, se isso acontece, não se expressa muitas vezes a satisfação com a exclamação: “Bem feito para eles”?

Um completo “reino de felicidade”, portanto, não pode ser criado por nenhum poder ditatorial, seja ele democrático ou absolutista. Ele só poderá trazer felicidade para alguns, mas uma ardente sensação de injustiça para outros seres. E a crença nessa injustiça no sistema não cria inspiração ou estímulo em favor de sua existência, mas sim em favor de sua queda. E a “paz” alcançada, assim, é apenas um fenômeno mais ou menos camuflado. A falta de paz continua sob essa camuflagem.

Mas uma “paz” que se mina a si mesma não pode ser a verdadeira felicidade ou o sentido final da vida, embora tal “paz” possa, em certos casos, ser uma medida externa absolutamente necessária para a sobrevivência da sociedade. Mas, para o indivíduo, a paz não é algo que possa ser dado por uma ordem social externa, por mais perfeita que ela seja.

A “verdadeira felicidade” não pode ser concedida ao ser por nenhuma ordem externa estabelecida por receita. Ela é de natureza e caráter muito mais profundos do que os fenômenos que estão sob o domínio da vontade consciente desperta. Com essa vontade, pode-se decidir diretamente se quer andar, sentar, correr, escrever, ler, falar ou coisas semelhantes, mas não se pode, do mesmo modo, decretar a si mesmo “feliz”.

Se a felicidade, como essas coisas mencionadas, fosse apenas um ato de vontade, não existiriam pessoas infelizes. Ninguém tem interesse em destruir o seu próprio bem-estar geral.

3. A verdadeira felicidade não é ser um com um sistema político ou religioso

A verdadeira felicidade, portanto, não consiste em ser um com um sistema, seja ele de natureza política ou religiosa. Os sistemas são, sem exceção, fenômenos externos limitados e, igualmente sem exceção, minarão a felicidade do ser em virtude dessa limitação.

Se alguém está totalmente em sintonia com um determinado sistema, isso significa que não possui interesses de vida que sejam afetados ou impedidos por sua limitação. E sente-se livre e feliz com o sistema. Não se incomoda com sua limitação. Sente-se “feliz”.

Mas, como sempre há ao mesmo tempo outros seres para os quais a limitação desse mesmo sistema constitui um bloqueio total de importantes e profundos interesses de vida, tais seres sentir-se-ão terrivelmente limitados e aprisionados mentalmente por esse mesmo sistema. Sentir-se-ão tão infelizes com o mesmo sistema quanto os primeiros seres se sentem felizes com ele.

Assim, a felicidade dos primeiros passa a repousar sobre a infelicidade dos outros. É incontestável que seres infelizes ou oprimidos lutarão por sua liberdade. Mas, com isso, é um fato que a felicidade dos primeiros gera forças que a minam. E que essas forças só podem ser vencidas pela força não dá nenhuma segurança absoluta, mas apenas revela que ainda não saímos do terreno da selva em nossos corações.

4. A encruzilhada entre o animal e o homem terrestre

A paz que desejamos é morte e destruição sobre os nossos inimigos. Mas a vida tem um sentido mais elevado para o ser humano terrestre do que tal felicidade. Por que, de outro modo, esse ser deveria sair do grande eldorado da selva, onde a luta de vida e morte reina e onde a felicidade consiste apenas em manter, com o pé sobre o pescoço dos semelhantes, um troféu de vitória?

Aqui chegamos à grande encruzilhada entre o homem terrestre e o animal. Enquanto a felicidade do animal depende exclusivamente de sua superioridade e de seu poder de provocar morte e destruição para outros seres na selva, e com isso afirmar apenas a própria existência, a felicidade do ser humano deve necessariamente afirmar-se de uma maneira totalmente diferente. Caso contrário, nunca sairá do estágio animal.

Ser mais genial e hábil na execução do princípio de matar, por meio de sua capacidade técnica, não o eleva em nenhum grau acima do princípio da selva; pelo contrário, apenas transforma o ser humano em um animal ainda mais feroz e bestial do que aqueles que normalmente designamos por esse conceito.

O que é, então, esse “outro” que deve ser o fundamento da verdadeira felicidade do ser humano e, assim, torná-lo um ser superior ao animal? Não é exatamente o chamado “Espírito Santo”, que na realidade é o mesmo que “consciência de Deus”? O ser humano terrestre está, portanto, a caminho de tornar-se animado pela consciência de Deus, o que equivale a tornar-se “um com o Pai”.

5. Estar em contato espiritual com a vida

O que significa, então, tornar-se animado pela consciência de Deus ou tornar-se “um com o Pai”? Significa tornar-se completamente familiar com os planos mentais da Divindade e perceber que há uma intenção divina amorosa em qualquer coisa que aconteça, independentemente de como isso possa parecer no plano material físico.

É naturalmente evidente que a própria existência e a vida se tornam, assim, a expressão de um ser vivo pensante por trás da vida, constituindo a realidade da Divindade. E que, por meio dessa convivência com uma Divindade viva, se está protegido de outra maneira diante de todos os fenômenos particularmente desagradáveis da existência, em comparação com o ser que vê nesses fenômenos apenas forças mais ou menos catastróficas desencadeadas ao acaso para a sua suposta felicidade, também é evidente.

Ao se ter passado pelo conhecimento do bem e do mal e adquirido a sabedoria fundamental daí resultante, vendo de modo puramente intelectual — e não apenas por fé — que “tudo é muito bom”, não existe mais nenhuma força que estimule ou promova o princípio de matar.

Está-se em contato espiritual com toda a vida, tanto com as coisas como com os outros seres. Ama-se o próximo como a si mesmo.